25/01/2021

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Colômbia tem média de um assassinato por dia em 2021

Em menos de duas semanas de 2021, já foram registrados três massacres com 13 pessoas assassinadas na Colômbia, o que equivale a um assassinato por dia. O cenário de violência não é recente. Se fazemos uma análise desde a assinatura dos Acordos de Paz, em 2016, a cifra supera os mil mortos, segundo levantamento do Instituto de Desenvolvimento da Paz (Indepaz). Cerca de 573 pessoas, equivalente a 52% dos homicídios, foram assassinadas durante o governo de Iván Duque, que assumiu a presidência em 2018.

Os massacres eram fenômenos “comuns” na década de 1980 e voltaram a acontecer em 2020, quando foram registradas 91 chacinas em todo o país. 

O mais recente aconteceu na última terça-feira (12), na cidade de Cali, estado de Valle del Cauca. Três pessoas foram assassinadas por arma de fogo, num bar no bairro Santa Elena às 8h15 da manhã. Os outros dois massacres aconteceram nos estados de Antioquia e Caquetá, no último fim de semana, deixando seis vítimas mortais. 

Já na segunda-feira (11), o ativista ambiental Gonzalo Cardona Molina foi morto no município de Tuluá, estado de Valle del Cauca. A imprensa colombiana noticiou como “o primeiro líder ambiental morto do ano”. 

A violência também não tem distinção de idade. Na última semana, duas meninas de 12 e 15 anos foram brutalmente assassinadas. A primeira, encontrada com sinais de violência sexual, no estado de Cauca e a segunda, morta a machetadas, no estado de Nariño.

“A maioria dos líderes sociais assassinados são pessoas que estão trabalhando pela paz, pela recuperação das terras e pelos direitos humanos. Esse é o custo que se paga por lutar pela vida no nosso país”, afirma a senadora do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC), Victoria Sandino. 


Apesar da pandemia, milhares de colombianos se manifestaram em 2020 para denunciar o ano mais violento da última década no país. / Reprodução

O representante de Política Exterior da União Europeia, Josep Borrell pediu uma resposta eficaz do Executivo colombiano e a adoção de “medidas de caráter estrutural”, assim como a aplicação total dos Acordos de Paz, para proteger a vida de militantes sociais. 

Os ataques do fim de semana são considerados de autoria do Clã do Golfo, um dos maiores grupos narco-paramilitares que opera na costa pacífica colombiana, rota que corresponde a 70% do envio de drogas à América do Norte.

Já as mortes do final de dezembro de 2020 na região do Valle del Cauca supostamente são de autoria do grupo La Local, que controla boa parte do fluxo marítimo de Buenaventura, onde está o maior porto com saída para o Pacífico. 

A escalada de violência vem acompanhada do incremento das atividades ilícitas. Em 2019, a Colômbia alcançou um recorde de produção de cocaína, com 212 mil hectares cultivados, de acordo com Departamento de Estado dos Estados Unidos. 

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A presença de grupos irregulares que controlam as plantações de narcóticos no campo e o escoamento da produção pelos portos no Oceano Pacífico e na Mar do Caribe são outros fatores que contribuem para que os estados com maiores índices de homicídios se localizem nas duas zonas. 

Entre eles, destaca-se o estado de Antioquia, berço do uribismo, com 21 massacres registrados no último ano. A relação do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez com grupos armados irregulares e com o narcotráfico é motivo de uma série de denúncias e investigações. Sendo padrinho político do presidente Iván Duque e criador do partido Centro Democrático, é difícil não estabelecer paralelos com a situação generalizada de violência que tomou conta do país no últimos dois anos. 

Em uma publicação, o partido Farc denuncia: “Entre as 6 mil vítimas do genocídio da Unidade Popular, os 10 mil ‘falsos positivos’, a centena de líderes sociais e os 253 firmantes do acordo de paz assassinados, há um fio condutor e um plano coordenado, não são maçãs podres, nem casos isolados”. 

Em todos os casos, as autoridades asseguram que foram abertas investigações, mas até o momento há poucas conclusões sobre os culpados. A senadora Victória Sandino afirma que a inação do Estado colombiano ajuda a legitimar o cenário de guerra. 

“Acreditamos que o Conselho de Segurança, as Nações Unidas e o secretário geral da ONU devem fazer um acompanhamento rigoroso e exigir ao governo o cumprimento integral dos Acordos de Paz. Este governo o burlou de todas as formas, começando pela falta de garantias, e creio que este organismo multilateral, que vem apoiando o Acordo, deve ter uma presença mais efetiva e deve convocar o governo nacional para que cumpra com o que foi pactado”, defende. 

Uma missão de paz e verificação da ONU está de maneira permanente no território colombiano, acompanhando a implementação dos acordos, no entanto, a escalada de mortes, que remonta ao período ativo de conflito armado, permanece. 

Em outubro do ano passado, cerca de dois mil ex-guerrilheiros da FARC organizaram a Peregrinação pela Vida e pela Paz, que atravessou milhares de quilômetros, saindo dos estados Norte de Santander, Valle del Cauca, Putumayo, Chocó, Cesar, Anitoquia, La Guajira, entre outros, até chegar à capital Bogotá, denunciando os homicídios sistemáticos em todo país. 

Em mais de uma ocasião, Duque e seu partido tentaram aprovar leis que anulavam pactos estabelecidos pelos Acordos de Havana. Para tentar impedir o mandatário, Farc, Polo Democrático e o Partido Verde conformaram no Congresso a “bancada da paz” para exigir o cumprimento dos acordos e barrar retrocessos ao documento assinado em 2016.

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Para o ex-combatente Luis Alberto Albán Urbano (conhecido como Marco León Calarcá), a política de segurança do Estado colombiano vê qualquer ator divergente como um alvo militar. 

“A única garantia de cumprimento é a pressão popular. Não é um pacto somente para tirar nossas armas, mas para solucionar as causa do conflito interno”, assegura o ex-guerrilheiro e atual congressista colombiano. 


Marcha pela paz mobilizou mais de 2 mil ex-guerrilheiros da FARC por dez estados colombianos até a capital Bogotá para denunciar a violência armada contra os firmantes do acordo de paz. / Nodal

Urbano explica que a maior pressão exercida pelos parlamentares do partido Centro Democrático é direcionada à Jurisdição Especial para a Paz (JEP) e à Comissão de Verificação da Verdade e Reparação. 

“Sua força fundamental está dirigida ao sistema de verdade, justiça e reparação, e garantias de não repetição. E por que esse medo? Por que é a JEP que irá estabelecer toda a verdade. Aí terão que responder pela doutrina paramilitar e pela barbárie que cometeram contra nosso povo”, analisa o parlamentar.  

O incumprimento dos Acordos de Paz e os assassinatos sistemáticos levaram a dissidências dentro do partido Farc. Em 2020, consolidaram-se dois grupos.

A Segunda Marquetalia, que já havia rompido com a direção do partido no final de 2019, liderada por Iván Márquez e Jesús Santrich, busca retomar o controle de território em La Guajira e Norte de Santander, zona fronteiriça com a Venezuela. Já ao sul da Colômbia, outra dissidência armada se organizou em torno de Gentil Duarte. Segundo o ministro de Defesa, Carlos Holmes Trujillo, entre 2018 e 2020, 4.600 pessoas se somaram às filas das dissidências farianas. 

Luis Alberto Urbano reconhece que há divergências internas no partido sobre como atuar diante do cenário de violência, mas assegura que a maioria concorda que voltar à luta armada não contribui para a paz. 


A Segunda Marquetalia foi a primeira dissidência das FARC, hoje o ministro de Defesa estima que 4600 colombianos estão novamente organizados em guerrilhas armadas. / Reprodução

Victória Sandino afirma que, através da bancada da paz no Parlamento colombiano, pretendem considerar os últimos dois anos nulos para a aplicação do Acordo, que tem um prazo máximo de 15 anos.

“A esperança não está perdida, apesar das enormes dificuldades que temos. Seguiremos trabalhando para que a paz seja uma realidade no nosso país”, assegurou a deputada. 

“São um governo e um partido que, com toda sua prepotência, acreditam que podem fazer tudo, por isso para nós é tão importante trabalhar com as forças progressistas, democráticas, liberais e de esquerda da Colômbia para uma solução diferente para 2022, que permita que outras forças conseguiram alavancar o cumprimento do acordo”, concluiu o ex-guerrilheiro Luis Alberto Albán Urbano. 

Edição: Luiza Mançano

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