28/10/2020

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Eleições na Bolívia: "O que está em jogo são as conquistas dos povos indígenas"

Às vésperas das eleições na Bolívia, realizada neste domingo (18), o país se prepara para um dos momentos mais cruciais de sua história. Do terror espalhado pelos setores mais conservadores e radicais do país à possível vitória do Movimento ao Socialismo (MAS) no primeiro turno, passando pela turbulência política e a pandemia do novo coronavírus, são muitos temas em jogo nesta disputa presidencial. 

O Brasil de Fato conversou com Adriana Guzmán, uma referência do feminismo comunitário na Bolívia e integrante da organização Feministas de Abya Yala.

Quase um ano após o golpe cometido contra o então presidente Evo Morales (MAS), o primeiro mandatário indígena do país, Guzmán comenta qual é a situação da nação andina e o contexto eleitoral na perspectiva das organizações sociais, além do que elas esperam das eleições deste 18 de outubro, que acontecerão após a data ter sido adiada três vezes.

Na avaliação da feminista da etnia aymara, estas eleições presidenciais são o resultado da pressão e resistência das organizações e movimentos populares. Para ela, o pleito ocorre em um contexto de violência, perseguição política e partidária, desconfiança em relação ao papel do atual Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), além desgaste do atual governo e rumores de investidas da direita contra o processo eleitoral e o MAS, que lidera as pesquisas de opinião.

“Essas eleições ocorrem em condições totalmente desiguais. Há uma violência sistêmica organizada a partir do Estado, seja contra o partido do MAS ou contra qualquer um que diga o que pensa, contra aqueles que chamam este governo de ‘governo interino’, e contra aqueles que denunciam o golpe. Ou seja, há uma perseguição política pelo que se diz e pelo que se pensa”, afirma Adriana.

Outra coisa que acho que está em jogo são todas as coisas que foram construídas, o Estado Plurinacional, a descolonização da educação, a luta contra todas as formas de discriminação. Se Mesa ou Camacho ganharem, haverá um revés, falarão sobre o retorno à República. Perderemos tudo pelo que temos lutado nestes 14 anos.

Se o MAS ganhar, me parece que a governança será muito difícil, porque o Congresso vai ter pessoas de Camacho e Mesa, que não vão ficar satisfeitos, vão continuar pressionando, vão ter seus grupos paramilitares ativos o tempo todo. Então, vai ser muito difícil para o governo do MAS se eles não chegarem a acordos.

E aí tenho medo, porque quais os tipos de acordos, já que se podem negociar com algumas coisas, mas negociar a impunidade, por exemplo, se os acordos forem para deixar impunes os autores dos massacres, não tocar nos militares que massacraram, não processar os policiais que se amotinaram e que também massacraram [o povo], não desmantelar os grupos paramilitares. Enfim, se esses fossem os possíveis acordos do MAS, acredito que também vai ser difícil governar com as organizações sociais.

Nós, como organização, acreditamos que um país assim não pode ser construído, então não haverá paz sem justiça. Não queremos ver mais um assassino fugir para outro país como no Massacre do Gás (2003). Queremos Jeanine Añez e Arturo Murillo na prisão, porque eles são os autores dos massacres, e isso, para nós, é uma questão fundamental.

Mas em qualquer dos cenários, vai ser muito difícil o que vamos enfrentar após as eleições.

Edição: Vivian Fernandes e Luiza Mançano

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